- Aqui estou, enquanto isso, forjando uma letra que nem mesmo é minha. Ao forjá-la, forjo a mim mesmo.
Minha própria alma. - Sabia?
- A técnica não explica tudo meu caro. O sentir produz o sentido!
Construções prolixas de personagens infinitamente díspares e planas podem não dizer nada. Absolutamente nada. ¿ Mesmo sendo tecnicamente perfeitos!
Heróis problemáticos em conflito com um mundo hostil podem falar muito.
- Basta sentir meu caro.
Quando ia começar a pensar em como arrumar este diálogo, que a muito não sai da cabeça, na introdução do filme que acordou pensando em fazer, foi interrompido por uma senhora gorda que sentara ao seu lado, e agora queria descer no próximo ponto.
- Meu filho, dá licença...
Chegou a pensar, devanear na verdade, que deveria começar com a tela preta, intercalando com algumas imagens durante o primeiro diálogo. Preto. Imagens das personagens conversando no buteco. Preto. Imagens de programas televisivos, filmes, alguns em preto em branco.
Mas foi interrompido. Acordou. Eram duas da tarde, numa cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, em plena segunda-feira. A especulação imobiliária fez e faz a cidade crescer cada vez mais pro alto, em todo canto brotam, da noite pro dia, prédios imponentes.
- Heróis problemáticos em conflito com um mundo hostil..., pensa não contendo um sorriso tímido ao olhar as ruas que vão ficando. O sol torra os miolos de todos que vagam feito zumbis pelas ruas. - Indo cuidar de suas vidas.
Volta para sua reflexão solitária, que tanto gosta, que tanto gosta de dizer que - o fetichismo da técnica não consegue - nunca - explicar por que nada a substitui.
- Somos seres solitários por natureza! Intui, em um salutar momento de distração, fazendo com que não dê a mínima ao fedor de baratas e à poltrona solta em que está sentado, no ônibus conhecido por um número, um único número, 7. Nunca entendeu, e nunca se preocupou em perguntar o porquê disso.
Dentro do ônibus faz tanto calor quanto nas ruas. As axilas suadas mancham as camisas. Todos mal humorados.
Num momento de descuido percebe, na rua, alguém que parecia não pertencer e nem estava pr¿ali, entregue a um devir tristemente belo.
Seguindo um impulso irresistível, - Motorista, pare o ônibus!
Em poucos passos pára frente uma guria bela, diferente, olhos tristes.
- Qual seu nome?
Com desconfiança nos olhos, - Ana, por quê?
O calor parece que vai derreter todos que vagam pelas ruas. Os prédios, a grande massa de concreto não deixa o ar circular.
- Eu preciso falar com você. Eu tenho que te dizer umas coisas.
Com mais desconfiança nos olhos, - Mas eu preciso ir andando, to com pressa.
- Eu compreendo, posso te acompanhar? Sem esperar alguma resposta começa a andar e ela a seguir. - Eu preciso mesmo falar com você, caso contrário vão morrer dentro de mim as palavras. E só você pode escutar.
Com um olhar de espanto no lugar da desconfiança, - Diga!
- Você é uma pessoa linda. Você sabe disso, mas se esqueceu. Não te preocupes com que pensam os outros. Eles não merecem.
No meio dessas palavras sem sentidos, a sensação é de que, enfim, algo de bom acontece em meio ao monte de concreto. Rubra, pára no meio da rua e o encara.
- Por que você me diz todas estas coisas? Não basta o fato de não me conhecer?
Com seriedade no olhar e na fala, - Eu poderia cometer o clichê de dizer que seus olhos falam por ti, o que seria uma mentira deslavada. A verdade é que eu não sei, apenas sinto, sinto até as últimas instâncias. Eu te amo, é inconseqüente, eu sei. Mas eu te amo. É só!
Dando as costas em seguida, seguindo seu rumo. Um sorriso inconseqüente estampado no rosto e um alívio estampado no andar despreocupado.
Estática, ali ficou por um instante, sem entender o que lhe acontecera. Uma estranha vontade de sorrir era inevitável.
Alexandro F.
:: Alexandro Chagas Florentino Segunda-feira, Setembro 11, 2006 [+] ::